
A tragédia que aconteceu em Itumbiara (GO) e abalou o país, nos últimos dias, ultrapassou os limites do luto e da comoção. Em meio à investigação sobre o assassinato de dois meninos pelo próprio pai, o então secretário de Governo do município, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, uma nova onda de desinformação passou a circular nas redes sociais: uma suposta carta atribuída à mãe das crianças.
O conteúdo, amplamente compartilhado por perfis de fofoca e até reproduzido por veículos de imprensa, apresenta um texto em tom de confissão e arrependimento, no qual a mulher reconheceria “falhas no casamento” e pediria perdão. Não há qualquer confirmação de que essa carta tenha sido escrita por ela. Até o momento, nenhuma autoridade ou familiares confirmaram a autenticidade do texto ou sua autoria.
Em um cenário de dor extrema, a circulação de uma mensagem não verificada adiciona mais violência à vítima, que, além de perder os filhos, passou a ser responsabilizada publicamente pelo crime cometido pelo ex-companheiro.
A falsa carta que circula
O texto atribuído à mãe diz, entre outros trechos: “Hoje me dirijo a todos com a alma despedaçada por uma dor que palavras não conseguem traduzir. Perdi meus filhos, perdi minha família e uma parte de mim se foi para sempre. Reconheço, diante de todos, que cometi falhas no meu casamento”. A mensagem segue afirmando que “nada pode justificar a tragédia” e termina com um apelo religioso.
Eram casados? Estavam separados?
Essa é uma das perguntas que mais têm circulado nas redes sociais, e também uma das mais distorcidas. Thales e a esposa estavam casados há cerca de 15 anos e tinham dois filhos. Nos dias seguintes ao crime, passaram a circular versões conflitantes sobre o estado da relação.
Em redes sociais, internautas que se apresentam como “amigos próximos” ou “moradores da cidade” passaram a fazer afirmações sobre uma possível separação, traição ou crise conjugal. Até o momento, não há confirmação oficial sobre o status jurídico do casamento. A própria Polícia Civil informou que a motivação do crime ainda não foi oficialmente concluída e que o inquérito segue sob sigilo.
Suposta traição virou combustível de ódio
Um vídeo divulgado por um perfil de fofoca no X (antigo Twitter) ajudou a espalhar a narrativa de que uma suposta traição da mãe teria motivado o crime. A versão ganhou força rapidamente, gerando ataques diretos à mulher.
Em parte dos comentários, perfis identificados com discursos red pill passaram a sustentar que o homem teria agido “movido pela dor”, numa tentativa de deslocar a responsabilidade do agressor para a vítima.
“Filicídio retaliatório”
O médico legista e influenciador Marcelo Rocha comentou o caso nas redes sociais e classificou o crime como “filicídio retaliatório”. “Isso que aconteceu em Itumbiara não foi causado por uma suposta traição, não. Se chama filicídio retaliatório. É uma vingança do homem contra a mulher, uma violência psicológica contra ela, porque ele sabe que ela vai se sentir culpada pelo resto da vida, mesmo não tendo culpa nenhuma.”
Segundo ele, a lógica é punitiva: “Se ele não pode ter ela, ela não pode ter os filhos, que é o que ela mais ama.” Rocha afirma que, em muitos casos semelhantes, os filhos são vistos como extensão do casamento,e o fim da relação é interpretado como perda de controle ou de status.

