
No mês da Consciência Negra, a lembrança de um samba clássico brasileiro reacende um debate necessário sobre memória, identidade e o apagamento histórico da população negra no país. Ao ouvir a música “O Neguinho e a Senhorita” – composta em 1965 por Noel Rosa de Oliveira e Abelardo Silva e eternizada na voz de Elza Soares – o jornalista Josalto Alves recordou-se de outra história marcada pelo racismo estrutural: a do primeiro e único presidente negro do Brasil, Nilo Procópio Peçanha.
Assim como na canção, em que uma jovem branca e rica foge de casa para casar-se com um compositor negro e pobre, a vida pessoal de Nilo Peçanha também envolveu escândalo e preconceito. Sua esposa, Ana Castro Belisário de Sousa, aristocrata, enfrentou a família para unir-se ao político que, embora culto e promissor, era perseguido por não corresponder ao ideal de “brancura” imposto pela elite da época.
Um presidente que a história oficial tentou apagar
Poucos brasileiros sabem que o país já foi governado por um afrodescendente. A invisibilização da trajetória de Nilo Peçanha não é acidental. Reflete o processo de branqueamento que marcou a Primeira República, período no qual sua origem racial era omitida ou tratada com desprezo.
Nascido em 2 de outubro de 1867, em Campos dos Goytacazes (RJ), Nilo era filho de Joaquina Anália de Sá Freire, mulher negra, e de Sebastião de Sousa Peçanha, o “Sebastião da Padaria”, homem de origem humilde. Mesmo após formar-se em Direito e construir sólida carreira política — deputado, governador, vice-presidente e, depois, presidente — continuou sendo alvo de ataques racistas. Parte da elite o chamava pejorativamente de “o mestiço de Morro do Coco”.
Uma gestão curta, mas transformadora
Nilo Peçanha assumiu a Presidência da República em 14 de junho de 1909, após a morte de Afonso Pena. Seu governo, que durou 17 meses, marcou importantes avanços para o desenvolvimento social e educacional do país.
Entre suas principais realizações, destacam-se:
- Criação do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas;
- Fundação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), embrião da atual Funai;
- Implantação das Escolas de Aprendizes Artífices, primeiro modelo de ensino técnico voltado ao trabalho, base dos atuais Institutos Federais e Cefets.
Por sua contribuição, foi reconhecido como Patrono da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil, título oficializado pela Lei 12.417/2011. Pesanhista convicto, defendia que “o Brasil atual saiu das academias. O Brasil do futuro sairá das oficinas”.
Educação antirracista: uma dívida histórica
Com a Lei 10.639/2003, o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira tornou-se obrigatório no país. Em 2010, o Estatuto da Igualdade Racial reforçou o compromisso estatal com políticas educacionais que valorizem a população negra e combatam o racismo.
Nesse sentido, Josalto Alves destaca que é urgente que a história de Nilo Peçanha seja incorporada definitivamente aos materiais escolares, incluindo o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Ele defende ainda que governos estaduais e municipais produzam cartilhas, e-books e vídeos educativos para distribuição nas escolas.
Recontar a trajetória do único presidente negro do Brasil é reconhecer sua importância, corrigir um apagamento histórico e fortalecer a construção de uma educação antirracista que inspire orgulho, identidade e consciência social.
19 de novembro de 2025
Josalto Alves – DRT-BA 931
(Foto: Centro de Referência de Acervos Presidenciais – Arquivo Nacional)

